Representatividade: Conheça a história de mulheres que venceram e hoje são referência no MPAC

Empoderamento, segundo o dicionário Michaelis, em sua versão virtual, é um processo pelo qual as pessoas aumentam a força espiritual, social, política ou econômica de indivíduos carentes das comunidades, a fim de promover mudanças positivas nas situações em que vivem.

Assim como sua definição, o ato de empoderar envolve uma melhora não apenas para o indivíduo, mas ao meio em sua volta, seja com a mudança de atitudes e percepção, ou mesmo a medida que os espaços são ampliados e as realidades mudam, aumentando as oportunidades de inclusão.

Do ponto de vista sociológico, o termo empoderamento (originalmente empowerment), segundo Rute Vivian Angelo Baquero, Doutora em Filosofia pela Florida State University (1979), é um conceito que tem raízes na Reforma Protestante e se expressa nas lutas pelos direitos civis e na ideologia da ação social, presente nas sociedades dos países desenvolvidos, na segunda metade do século XX.

Nos anos 70, segundo a estudiosa, esse conceito é influenciado por movimentos de autoajuda e, nos anos 80, pela psicologia comunitária. Na década de 1990, o termo recebeu a influência de movimentos que buscavam afirmar o direito da cidadania sobre distintas esferas da vida social, entre as quais a prática médica, a educação em saúde, a política, a justiça, a ação comunitária.

O empoderamento individual, segundo publicou Rute Vivian em seu trabalho intitulado ‘Empoderamento: Instrumento de emancipação social? – Uma discussão conceitual’ refere-se à habilidade das pessoas de ganharem conhecimento e controle sobre forças pessoais, para agir na direção de melhoria de sua situação de vida. “Diz respeito ao aumento da capacidade de os indivíduos se sentirem influentes nos processos que determinam suas vidas”.

É dessa forma que percebemos que o ato de empoderar, seja de forma ampla, seja individual, dá-se através de revoluções, mudanças que redefinem o futuro do meio ou do indivíduo.

Hoje, em um universo de 714 membros e servidores no MPAC do Acre, 324 são mulheres, quase a metade. Desse número, 12 mulheres estão em cargos de chefia, sendo que dos seis diretores da instituição, metade são do sexo feminino.

As recepções dos prédios e unidades do MP são ocupadas por mulheres, que também dominam as chefias de gabinete dos membros, onde são maioria. Nos setores da instituição onde há atendimento ao público, é notável que o sexo feminino supera o masculino. Todas as copeiras do MPAC são mulheres e, na segurança institucional, elas também estão presentes.

Para demonstrar essas mudanças, conheceremos a história de três mulheres do Ministério Público do Acre (MPAC) que, através de suas revoluções pessoais e histórias de vida, obtiveram destaque na instituição e, hoje, são referência onde atuam. Suas vidas profissionais são exemplos de empoderamento e representatividade.

 

A força da mulher

De mudança de vida, a servidora Rosa Martins entende bem. De origem humilde, ela formou-se em Letras e começou a trabalhar no MPAC em um projeto do Estado que incentivava o primeiro emprego, ganhando na época apenas R$ 100.

Foi na instituição que conheceu o que é reconhecimento e, na gestão do procurador de Justiça Oswaldo D’Albuquerque como corregedor-geral, em 2003, foi contratada para integrar a equipe e passou a receber o maior salário que havia recebido até então, R$ 650.

“Trabalhava suado pra ganhar R$ 100. Quando caiu R$ 650 reais na minha conta, eu chorei, porque achava um absurdo de dinheiro, tanto que não sabia nem o que fazer. A situação era outra. Pra mim, foi emocionante ver, na minha conta, no meu nome, esse valor. Me senti reconhecida”, conta ela emocionada.

Após alguns anos, Rosa saiu do MP estadual para trabalhar como professora. Voltou anos depois, já na administração da instituição e, na época, conheceu o projeto ‘MP na Comunidade’. Apaixonou-se. “Fiz de tudo pra sair da administração pra trabalhar no ‘MP na Comunidade’, porque ‘meu negócio’ é trabalhar com o público, na rua, fora de uma sala”, conta Rosa.

Foi no ‘MP na Comunidade’ que a servidora deixou desabrochar a vocação por servir, ouvir e atender quem mais precisa, desafio que a levou até a coordenação da Unidade Ministerial do MPAC no bairro Cidade do Povo, onde está até hoje.

Foi preciso ter força para enfrentar situações conflituosas em que precisou se impor. Rosa chegou a ouvir, em situações em que a equipe recebeu homens acusados de violência contra a esposa, frases como: “O que tenho pra resolver, não resolvo com mulher, resolvo com homem”.

Ela conta como reagiu: “Mostrei a ele o homem que eu tenho dentro de mim, dei dois gritos nele e ele baixou a guarda. Mostrei que, apesar de ser mulher, tenho garra suficiente para enfrentar um homem, independentemente da situação que for”, conta orgulhosa.

É com orgulho também que a coordenadora da unidade fala sobre a instituição que lhe oportunizou o crescimento profissional, ressaltando que, no Ministério Público do Acre, não existe sexo frágil, existe oportunidade.

“Somos respeitadas e determinadas em tudo o que fazemos, pois temos jogo de cintura para resolver os problemas de casa e do trabalho, ao mesmo tempo, sem misturar as coisas. O MPAC nos dá a liberdade para resolver o que quer que seja, dentro do nosso alcance. Além de ser minha segunda casa, é uma grande escola” finaliza.

 

Militância e realização

A próxima história que conhecemos tem tudo a ver com o MPAC, pois foi dela a ideia da criação do Centro de Atendimento ao Cidadão (CAC) e é nas mãos dela, até hoje, que o setor está. A servidora Nazaré Gadelha tem uma história como ativista social que lutou pelos interesses da população e encontrou o seu caminhou na missão de atender as pessoas.

“O CAC é um projeto que eu tinha debaixo do braço. Pedi oportunidade para coordenar um serviço que eu já faço há muito tempo, há mais de 25 anos e me foi dada essa oportunidade de coordenar. Não me vejo fazendo outra coisa. Eu gosto de atender e hoje me considero uma profissional da área do atendimento ao público. Me realizo aqui todos os dias”, diz Nazaré.

Foi no MPAC que ela realizou-se profissionalmente e, segundo ela, tem a oportunidade de trabalho facilitada pela legitimidade que a instituição tem. Motivo esse que nunca colocou a servidora em nenhuma situação delicada ou desconfortável por ser mulher. É respeitada dentro e fora da instituição pelo trabalho que desenvolve.

“Enquanto mulher, eu me sinto realizada, me sinto representada, porque nós temos, hoje, uma gestora que é mulher e que abraçou a causa das mulheres. Acredito que todas as mulheres do Ministério Público trabalham muito felizes. Eu sou feliz fazendo o que eu faço”.

Sobre o fato de apenas mulheres fazerem o acolhimento nas recepções das unidades do MP, Nazaré conta que nunca houve um direcionamento para que isso acontecesse, mas a sensibilidade e o cuidado que as moças empregam em seu trabalho faz com que as pessoas se sintam bem recebidas.

“São pessoas que, além de serem bem treinadas e capacitadas, trabalham felizes por serem reconhecidas. Isso reflete no seu trabalho e empregam essa humanidade em sua atuação”, destaca a coordenadora do CAC.

 

“Lutar é estar preparada”

Essa frase reflete a atmosfera em que se deu a entrevista com a chefe de gabinete da Procuradoria Geral do MPAC, Silvânia Ferreira. Mulher simples e determinada, em nenhum momento falou sobre sofrimento ou dificuldade, mas reforçou, o tempo todo, que o sucesso só depende de cada um de nós.

Com 27 anos de atuação no serviço público, 18 deles foram dedicados ao MPAC. O início foi difícil, mas quando conseguiu o reconhecimento, agarrou-se a ele e só cresceu desde então. “O que conquistei até hoje foi por causa da minha dedicação, do meu esforço, mas sempre falo que o servidor, independente do gênero, não pode ficar bitolado à sua função”, defende a servidora.

Componente do quadro efetivo da instituição, Silvânia começou trabalhando com Kátia Rejane, na época ainda promotora de Justiça e, hoje, procuradora-geral da instituição. Na chefia de gabinete da PGJ, enfrenta desafios diariamente, mas se diz feliz por presenciar um momento em que o empoderamento feminino é cada vez mais real.

“Antes, a diferença entre homem e mulher no MP era grande. Hoje, a diferença é mínima. Lá fora, a realidade é outra. Ainda há muita divergência de salários, de posição social, então, ainda há muito pelo que lutar”, desabafa.

Como lutar? Silvânia revela alguns dos segredos que a fizeram uma mulher de sucesso: “Tem que buscar seus ideais, estudar e não ser submissa a marido, buscar sempre conhecimento e crescimento profissional, buscar sua independência e querer sempre mais, para alçar novos voos”, conta.

Ela ainda reforça: “Consegui meu espaço lutando, apesar das circunstâncias. Nada me parou. Nada me impediu de crescer e, hoje, posso dizer que sou realmente feliz. Acho que sou uma pessoa forte, se não fosse assim não teria conseguido”.

É com o exemplo de mulheres fortes e lutadoras que o MPAC demonstra o real significado de empoderar, que é dar oportunidade de crescimento, liberdade para desenvolver seu trabalho e espaço para que mais mulheres assumam lugar atuante em uma sociedade cada vez mais próxima do que é a missão do MPAC, enquanto guardião da lei e defensor da democracia e dos interesses da sociedade.

Com as histórias de vida das entrevistadas foi possível perceber que o ato de empoderar é reconhecer que somos todos humanos. Como declarou Hillary Clinton, na época primeira-dama dos EUA, durante conferência de Pequim no ano de 1995: “Os direitos humanos são direitos das mulheres e os direitos das mulheres são direitos humanos”.

Tiago Teles – Agência de Notícias do MPAC