Projeto usa arte-terapia para ajudar no tratamento de transtornos mentais

Tributário da filosofia de Nietzsche, que ao fim da vida padeceu de um distúrbio mental, o pensador francês Michel Foucault falava uma estética da existência, pela qual cada pessoa pode ser o artesão da beleza da própria vida. Assim, a existência seria uma obra na qual o homem é o artista que constrói a si mesmo ao encontrar outras obras de arte.

Essa ética é também seguida pelo projeto ‘Arte de Ser’, vencedor na categoria ‘Inovação’, da 1ª edição do ‘MP Atitude – Pequenas ações transformam o mundo’, iniciativa do Ministério Público do Acre que visa valorizar ações de cidadãos e organizações governamentais e não governamentais que contribuem para o exercício da cidadania.

Desde 2009, o projeto vem ajudando pessoas com e sem distúrbios mentais a dar sentido à vida através da expressão artística. A iniciativa funciona em uma casa do Parque Capitão Ciríaco, em Rio Branco, e é uma importante parceira da rede de saúde mental na promoção de direitos, baseada em uma filosofia de convivência dentro da comunidade.

 

Existe loucura?

Referência em vários campos do conhecimento, Foucault também empreendeu uma profunda reflexão sobre o discurso da loucura. Na obra ‘A História da Loucura na Idade Clássica’, notou que esse discurso no decorrer dos séculos foi mudando e se convertendo em instrumento de poder, isolamento e punição, com colaboração, inclusive, da medicina.

Se em séculos anteriores eram considerados loucos aqueles que falavam a verdade de forma extravagante, no século 19, o avanço da psiquiatria enxerga a loucura como uma doença mental, a qual passaria a ser uma ameaça à sociedade e deveria ser corrigida com o isolamento em asilos médicos, proibindo o convívio familiar e social.

Foucault, crítico feroz da razão ocidental, faz a defesa da loucura, não como uma doença, mas desrazão, como oportunidade para a manifestação artística e literária, livre das amarras da ciência e do aprisionamento da linguagem. A loucura, assim, em sua opinião, não seria algo natural, mas um discurso inventado com objetivo de preservar a ordem.

Já no Brasil, a psiquiatra Nise da Silveira foi pioneira no estudo da arte enquanto expressão do inconsciente. Por isso, ela utilizou a arte na terapia de pacientes que enfrentavam transtornos mentais, opondo-se, dessa forma, aos métodos desumanos como confinamento em manicômios, choque elétrico e a técnica de lobotomia.

A médica notabilizou-se por criar, na década de 40, ateliês de pintura e desenho em um hospital do Rio de Janeiro para o tratamento psiquiátrico, o que lhe rendeu o reconhecimento daquele que seria mais tarde consagrado como o pai da psicologia analítica, Carl G. Jung. Seu trabalho reverberou na luta antimanicomial no Brasil, culminando com a reforma psiquiátrica, mais recentemente, que passou a valorizar a integração de quem sofre de transtorno mental à sociedade.

Espaço do acolhimento e da expressão

No Acre, o legado de Nise inspirou e uniu profissionais, pacientes e familiares que lutavam pela humanização do tratamento em saúde mental, bem como, a socialização dos portadores de transtornos psíquicos e o combate aos estigmas que envolvem esse campo. Uma dessas pessoas é o psicólogo Fabiano Carvalho, que, ainda como servidor da Secretaria de Estado de Saúde (Sesacre), pensou em utilizar a arte-terapia nos pacientes que procuravam atendimento no Hospital de Saúde Mental do Acre (Hosmac).

A ideia nasceu quando, chegando pela primeira vez para trabalhar como psicólogo no Hosmac, sentiu a necessidade de um ambiente mais acolhedor, alegre e propício à integração humana. Na hora, veio à cabeça a proposta de Nise por uma psiquiatria humanizada, empregando a arte na promoção da saúde mental.

A criação de um centro de convivência para esse tipo de prática já havia sido aventada no 1º Seminário de Saúde Mental do Acre, evento realizado em 2008 pela Associação dos Pacientes e Amigos de Saúde Mental (Apasama), com apoio da Central de Articulação das Entidades de Saúde (Cades) e Secretaria de Estado da Saúde.

O projeto ‘Arte de Ser’ começou reunindo alguns pacientes do Hosmac no centro cultural da Regional da Baixada da Sobral. Logo depois, transferiu suas atividades para a Paróquia Cristo Libertador. Em 2015, a Fundação Garibaldi Brasil cedeu um espaço no Parque Capitão Ciríaco, no Segundo Distrito, onde acontecem atualmente os encontros semanais.

Fabiano lembra que, no início, sem apoio dos órgãos governamentais, precisou de doações de amigos para realizar as atividades e várias vezes chegou a transportar os participantes do projeto no próprio carro para que pudessem sair de casa e chegar ao espaço cultural.

O Centro de Convivência Arte de Ser recebe cerca de 200 pessoas por ano, muitas delas enfrentando transtornos psiquiátricos, encaminhadas pelos serviços públicos de saúde, psicólogos, escolas, bem como outras pessoas sem transtornos, como artistas, estudantes de universidades públicas e privadas e admiradores da arte.

Nas oficinas, os participantes podem se expressar da maneira que quiserem, seja pela pintura, desenhos, produção de poemas, apresentações musicais, performances artísticas, além do envolvimento em atividades físicas, contação de histórias e brincadeiras.

O projeto oferece ainda, aos domingos, atividades artísticas no parque Capitão Ciríaco, voltadas aos moradores do entorno, e organiza exposições para apresentar alguns produtos dos frequentadores das oficinas. Fabiano diz que, mesmo o espaço enfrentando dificuldades para integrar formalmente a rede pública de saúde mental, em razão de entraves burocráticos, pensa em expandir para o interior do Acre esse tipo de iniciativa.

Ele também é um crítico da proposta recente do Ministério da Saúde em mudar a política de saúde mental do país. As modificações consistem em manter leitos em hospitais psiquiátricos, ampliar recursos para comunidades terapêuticas e limitar a oferta de serviços extra-hospitalares. “A gente não aceita que haja retrocessos. Acreditamos que a atual política de saúde mental ainda responde e aos nossos anseios por garantir a acolhida e a liberdade das pessoas”, destacou Fabiano.

 

A arte do encontro

Os transtornos mentais não se explicam por uma causa específica, porém geralmente são formados por fatores biológicos, psicológicos e socioculturais. Por isso a psiquiatra Nise da Silveira ensinou que a expressividade e o afeto constituem elementos transformadores no tratamento de saúde. O convívio social é de fundamental importância no momento das fragilidades emocionais e a arte pode funcionar como ferramenta de inclusão.

O estudante Ariel Pullig, 25 anos, por exemplo, frequenta o projeto ‘Arte de Ser’ há dois anos e foi incentivado por uma amiga e pela mãe. Segundo ele, o que o atrai no espaço é a liberdade para se expressar. Ariel pinta, toca violão, desenha e agora está aprendendo flauta doce. “Aqui tenho mais chance de fugir do estresse do dia-a-dia”, assevera o estudante, que também já lançou um romance, chamado “Os sem-cara”.

A professora Anne Grace Marques, do curso de enfermagem da Universidade Federal do Acre (Ufac), colocou a participação de seus alunos no projeto como requisito para cursar a disciplina de psiquiatria que está ministrando. O que chamou sua atenção na iniciativa foi a proposta de humanizar a saúde mental. “É uma experiência boa para os alunos porque vão compreender as relações humanas observando as diferenças”, argumenta.

Presente desde o princípio do Arte de Ser, quando ainda funcionava na Baixada da Sobral, o aposentado do Exército José Cláudio da Rocha conheceu o projeto quando fez tratamento no Hosmac com o psicólogo idealizador da iniciativa, Fabiano Carvalho. “É meu lazer, minha diversão”, descreve o aposentado, que gosta de ministrar palestras sobre conhecimentos diversos, da astronomia à religião, nas oficinas.

Leitor voraz, o estudante de pedagogia Ivan Sousa Silva, 25 anos, vem de Senador Guiomard todas as semanas para expressar sua arte no centro de convivência. O jovem diz que conheceu novas pessoas e pôde divulgar seu trabalho com a poesia. “O espaço é uma forma de ativar nossos talentos artísticos e socializar com outras pessoas”, assinalou.

 

 

 

 

 

 

 

Jaidesson Peres – Agência de Notícias do MPAC

Fotos: Tiago Teles