Casa do Caminho: Um beija-flor da solidariedade

Com o lema acolher, capacitar e promover, a Casa do Caminho acompanha 40 famílias do bairro Montanhês em situação de carência. A casa é formada por uma teia de voluntários e parceiros sensibilizados com a vulnerabilidade social que compromete a vida de crianças e jovens, homens e mulheres, negando a eles um futuro emancipador que favoreça o desenvolvimento ao máximo de suas potencialidades humanas. “Essa casa é da comunidade”, enfatiza a fundadora Marina Dorça Rosa Zago.

O projeto social foi eleito na categoria ‘Destaque comunitário’ do ‘Prêmio MP Atitude — Pequenas Ações transformam o mundo’, iniciativa do Ministério do Público do Estado do Acre (MPAC) que tem o objetivo de reconhecer e incentivar ações de cidadania.

O trabalho foi iniciado há 17 anos pela enfermeira e administradora de empresas Marina Zago, primeiramente com distribuição de sopa na Travessa Pera e com oficinas de trabalhos manuais como crochê para as mulheres. Com o tempo, conhecendo a realidade de carência das famílias do local, concluiu que precisava desenvolver um trabalho mais amplo. Daí nasceu a ideia de um espaço adequado para receber essas famílias, oferecer capacitação e incentivá-las a superar a realidade injusta a que foram submetidas.

Através de um leilão de gado realizado por um grupo de pecuaristas da cidade, foi possível arrecadar fundos para a construção Casa do Caminho. Marina diz que desde criança o altruísmo sempre foi forte dentro de si. Espírita, nasceu em Minas Gerais e chegou ao Acre há 33 anos, inclusive já foi presidente da Creche Espírita Lar da Criança. Sobre a motivação para tocar esse projeto, ela defende que cada ser humano precisa ser útil na Terra. E apresenta uma pintura grande e colorida em grafite de um beija-flor na parede, completando com a fábula do beija-flor que apagava um incêndio gota a gota.

Marina se considera um beija-flor da solidariedade, ou seja, está fazendo sua parte, como ensina a lição da fábula que Betinho não cansava de contar. O sociólogo e ativista, apesar da Aids que adquirira, liderou na década de 90, a campanha da Ação da Cidadania contra a Fome e pela Vida, época em que mais de 30 milhões de brasileiros estavam abaixo da linha da pobreza. Betinho, na verdade, fez da própria vida um apelo para a importância da solidariedade e da união em prol de uma causa. “Quem tem fome, tem pressa”, costumava repetir ao incentivar o engajamento das pessoas.

 

Mudança de vida

 

Hoje a Casa do Caminho atende famílias cadastradas com vários serviços e atividades de forma gratuita. Para isso, mantém-se de doações de várias empresas, famílias benfeitoras e parcerias com instituições públicas. A última reforma por que passou, por exemplo, foi feita pelos alunos do curso arquitetura da Uninorte, que ao lado da Grande Loja Maçônica e a classe de pecuaristas, é a principal parceira da casa.

A casa tem um pequeno laboratório de informática, brinquedoteca, dois consultórios médicos e um consultório odontológico, banheiros acessíveis, cozinha ampla, três salas de aula, onde são ofertadas as capacitações, área aberta para encontros e sala de costura. Na parte odontológica, segundo Marina, é priorizada a prevenção e a restauração dos dentes, inclusive com entrega de kit de saúde bocal. Nos consultórios, ao menos uma vez por semana, atendem pediatra, ginecologista e oftalmologista.

Diante dos casos frequentes de gravidez na adolescência, consumo de drogas e violência doméstica na região, o espaço sempre promove palestras educativas e preventivas. Na questão jurídica, membros da Comissão do Jovem Advogado e da Comissão de Ação Social, órgãos ligados à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-AC), vão ao local prestar orientação e o Conselho Tutelar faz atendimento de aconselhamento. Quanto aos cursos, estão relacionados à área de beleza, culinária e artesanatos. As crianças, por sua vez, aprendem a dançar balé nos sábados com profissionais da academia Power Fitness.

As famílias são acompanhadas constantemente, com visitas nas residências, verificação de documentação, situação em programas sociais, exames de saúde e assistência nos casos de gravidez. Desde 2016, em parceria com o governo do estado, a casa funcionava como um ponto do Programa Quero Ler, iniciativa que tem a meta de erradicar o analfabetismo.

Com apoio de um supermercado e restaurante local, as mulheres participam toda quinta-feira do preparo de sopa, que, depois de pronta, é partilhada entre as famílias atendidas. Esse momento também se torna aprendizagem: é ensinado sobre limpeza e armazenamento dos alimentos, sobre suas propriedades nutricionais e higiene no preparo das comidas. Uma horta cultivada na casa ajuda ainda a abastecer a cozinha.

Participando do projeto desde o início, Maria José Leão, 47 anos, afirma que hoje atua em várias profissões e construiu uma casa maior graças às capacitações da Casa Caminho. Ela agora se divide entre as profissões de cabeleireira, manicure, costureira e artesã. “Representou uma mudança na minha vida”, descreve Maria, que se tornou também supervisora da casa e é mãe de nove filhos. Um deles, Vanessa do Nascimento, 18 anos, com a bolsa que ganhara em um colégio particular por intermédio da Casa do Caminho, recebeu no início do ano a notícia de que foi aprovada no curso de Enfermagem da Universidade Federal do Acre (Ufac). Feliz, ela exprime com gratidão: “A Casa do Caminho me acolheu, me capacitou e agora está me promovendo”.

 

Texto: Jaidesson Peres – Agência de Notícias do MPAC